Poluição nos centros urbanos mata mais que guerras e chega a níveis críticos 562

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Voltemos ao século XVIII, Inglaterra. Nas principais manchetes locais da época, relatos de grandes transformações tecnológicas, econômicas, políticas e sociais que se disseminavam por todo o país prenunciavam um acontecimento que entraria para sempre na história da humanidade: a Revolução Industrial. Uma “nova era” que acabou transcendendo as barreiras geográficas da Europa para, definitivamente, ganhar o mundo.

Divisor de águas sem precedentes que resultou na constituição da sociedade moderna na qual hoje vivemos, apesar de complexo, o movimento revolucionário foi motivado por um fator bastante simples. Fortalecida e enriquecida graças à expansão do comércio internacional ocorrida entre os séculos XVI e XVII, mas incomodada com a grande concorrência, a burguesia inglesa percebeu que diminuir os processos artesanais significaria produzir mais e a menor preço, de modo a elevar os lucros. Passou, então, a investir na criação de máquinas e no aperfeiçoamento das técnicas industriais.

Com a evolução das indústrias aglomerando nos centros urbanos a maior parte de investimentos e serviços e diante do elevado movimento migratório de camponeses que rumaram para as cidades em busca de trabalho, o número de pessoas que viviam em espaços urbanos rapidamente superou a quantidade de habitantes que residiam no meio rural. Um progresso que trouxe muitos bônus, mas, também, uma série de ônus principalmente no que diz respeito às sequelas de ordem ambiental.

Seria injusto não reconhecermos os benefícios decorrentes da revolução e darmos o merecido crédito ao movimento progressista startado lá no século XVIII. Todavia, não podemos ignorar que, juntamente com os avanços, a poluição tornou-se uma das problemáticas mais evidentes da atualidade, colocando em risco não só a qualidade de vida de quem habita as cidades, mas de todos os seres e elementos naturais que coexistem e compõem o planeta.

A criticidade da poluição do ar nas grandes cidades

Fato é que em prol da evolução, cada dia mais poluentes tóxicos são produzidos e emitidos pelo homem, de modo a dificultar a existência na Terra. E os números são extremamente alarmantes, conforme estudo divulgado no final de 2017 pela revista científica norte-americana The Lancet, e que teve como parâmetro dados globais coletados em 2015: a poluição foi responsável por uma a cada seis mortes registradas no período, totalizando cerca de 9 milhões de óbitos.

Ou seja, doenças causadas pela contaminação dos recursos oferecidos pela natureza como enfarto, derrame e câncer de pulmão matam mais pessoas anualmente do que a fome, desastres naturais, tabaco, aids, malária e até mesmo todas as guerras e violência existentes no mundo.

Entre as formas de poluição incidentes, a degradação das águas e do ar são as duas categorias mais graves, sendo esta última a pior de todas. Segundo o The Lancet, dos índices de mortes registrados, a poluição do ar foi responsável por 6,5 milhões de baixas, seguida pela poluição da água, que matou aproximadamente 1,8 milhão de pessoas.

A maior parte das mortes ocorreu em países de baixa e média renda, onde a poluição está associada a até 25% dos óbitos. Bangladesh (Ásia) e Somália (África) foram os países mais afetados, enquanto Brunei (sudeste asiático) e Suécia (Europa) aparecem no final da lista.

Ocupando a 148ª posição do ranking, o Brasil perdeu quase 102 mil pessoas em 2015 (mais precisamente 101.739) para doenças relacionadas à poluição, o que equivale a 7,49% do total de mortes no país no referido ano.

Agentes causadores e falhas na prevenção

Se o carvão foi considerado o maior poluente do século XVIII – quando cerca de 100 milhões de toneladas desse minério eram extraídos por ano para fomentar a Primeira Revolução Industrial –, o combustível derivado do petróleo é, hoje, o grande vilão. Sua queima gera incontáveis toneladas de monóxido e dióxido de carbono que são diariamente lançados na atmosfera, de modo que mais de 60% da poluição do ar nas regiões das grandes cidades sejam decorrentes da utilização desse agente por veículos automotores.

Na cidade de São Paulo, por exemplo, conforme estimativas feitas por ONGs ambientais, as chances de desenvolver câncer de pulmão chegam a ser 20% maiores em comparação com outras cidades brasileiras. Cenário causado justamente pelo excesso de automóveis no município, que já superam a marca de 8,3 milhões de unidades registradas – entre carros, motos, ônibus e caminhões.

A ampla atividade de indústrias e outros elementos sociais que igualmente emitem altas quantidades de poluentes tóxicos, como o descarte inapropriado de lixo, são outros agravantes. Fatores não menos problemáticos que as queimadas, que decorrem principalmente das péssimas condições climáticas atuais e que dificultam a dispersão dos gases poluentes.

Nesse contexto de degradação ambiental mundial destacam-se, em tempo, a má consciência individual e coletiva da população, a irresponsabilidade de muitas entidades privadas e a frágil política de fiscalização e preservação dos recursos naturais adotadas por grande parte das administrações públicas.

Em detrimento ao crescimento das cidades, “como se não houvesse amanhã” e ignorando os alertas dados pela natureza, áreas arborizadas e grandes reservas florestais são cada dia mais destruídas para darem lugar às construções e infraestruturas de mobilidade, como edifícios, casas, ruas e estradas pavimentadas. Uma triste realidade que poderia ser facilmente amenizada com o plantio de árvores.

Plantar árvores é um dos meios mais práticos, eficientes e baratos quando o assunto é combater a poluição, já que entes arbóreos auxiliam diretamente na purificação do ar, absorvendo CO2 e gases tóxicos e liberando oxigênio para a atmosfera. Sem falar que árvores também são as maiores responsáveis por manter a umidade do ar, reduzir o calor, gerar sombra, permitir a permeabilidade do solo, promover a conservação da flora e da fauna silvestre e, acima de tudo, da raça humana.

Atenuar os efeitos das ações antrópicas no espaço geográfico urbano é urgente e de fundamental importância para garantir o que chamamos de sustentabilidade urbana, que, em resumo, nada mais é que a promoção de um desenvolvimento sustentável nos grandes centros, conduzido de forma a não comprometer o meio ambiente para as gerações futuras.

É inegável que alguns avanços vêm ocorrendo no sentido de minimizar os impactos ambientais. Mas a falta de ações eficazes de preservação indiscutivelmente prevalecem, e muitas modificações e melhorias ainda se fazem necessárias para não tornar o problema mais grave do que já está – e irreversível.

Um grande desafio a ser superado, mas possível com pequenos gestos, vontade de agir e conscientização!

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